segunda-feira, 12 de agosto de 2013

As matérias e a autoridade

Eu e o Jorge conversamos sobre a dificuldade de o Igor determinar as próprias atividades e, em seguida, conversamos com ele. Dissemos que ele teria de pensar em algo que gostaria de ver/ouvir/saber com base no sorteio das matérias e que nós estaríamos ali para auxiliá-lo, não para dirigir o encontro dele. E parece que agora está rolando!
Diariamente ele sorteia um papelzinho e decide, por si só, o que vai fazer. Sábado, por exemplo, ele sorteou mecânica. Foram ele, o Jorge e o Caio ao parque, andar de bicicleta, enquanto eu ia ao cinema com a Anna (ver O Renascimento do Parto -- todo mundo que nasceu tem de ver!). Depois ele disse que ficou reparando como a corrente da bicicleta se ajustava perfeitamente aos dentes da roda dentada. :) Com brilhinhos nos olhos. Acho que ele vai conseguir ficar assim por um tempo. :) Nada impede, entretanto, que tudo mude amanhã.
A outra atividade da família toda é decidir nosso futuro a curto prazo. Vendemos o apartamento e vamos para a Nova Zelândia aprender inglês "verdadeiramente", como diz minha mãe, professora de espanhol que morou em Barcelona e sabe bem a diferença entre uma e outra forma de aprendizagem.
Por enquanto vamos ficar 3 meses na terra do Senhor dos Anéis (rs), mas podemos ficar um pouco mais. Ainda não fechamos e vamos deixar para fechar apenas quando estivermos lá (né? Vai que é tudo fundo azul e as paisagens lindas do filme foram feitas no computador?? rs... Brincadeira, não é só isso que conta, afinal, somos 5 percepções diferentes).
Estou muito animada com todas as possibilidades e ansiosa pelos próximos passos.
No mais, mexer na minha estrutura escolarizada está me fazendo um bem danado.
A outra coisa de que queria falar era sobre o comentário que a Marília, minha amiga, fez aqui. Lia, vou copiar umas frases suas de lá, tá? Espero que não fique brava! :) É para dirigir meus pensamentos enlouquecidos, senão ninguém entende essa birosca aqui...

[...] existem alguns pontos que a escola nos apresenta e que servem para o resto da vida. Um exemplo disso é o respeito por autoridade. Há uma hierarquia na escola que a gente tem que respeitar obrigatoriamente. Não dá para desrespeitar professor, muito menos diretor. E mais pra frente, quando começamos a trabalhar, já estamos treinados a respeitar quem está acima de nós. Não da mesma forma submissa, mas pelo menos conseguimos aceitar melhor o papel de funcionário, já que nem todo mundo pode ser chefe.
[...]


Eu não sei se já li algo a respeito (sou péssima com referências, mas como percebi que até meu deus já havia sido idealizado por alguém pratrasmente -- Espinosa -- vale a pena você, leitor, levar em conta que talvez nenhuma das ideias que posto aqui são novas...), mas essa relação de autoridade que a Lia elogia sempre me deu um mal-estar.
E eu acho que foi culpa do modelo escolarizado de educação que tive, que gerou essa necessidade em mim de respeitar por respeitar, porque é obrigatório. Até hoje tenho dificuldade em lidar com as maiores "autoridades" na nossa sociedade: médico, advogado e professor.
Dia após dia tenho conseguido me livrar dessas amarras, porque, afinal, são pessoas como eu, erram como eu e não merecem mais ou menos respeito que qualquer outra pessoa.
E aí que está uma grande contradição na minha vida que venho tentando, devagarinho, desconstruir: por que os filhos devem respeitar e obedecer os pais obrigatoriamente?
Acredito que, como mãe, preciso mostrar alguns contratos sociais (ontem, mesmo, fomos a uma padaria começar o dia dos pais em família e, em determinado momento, o Caio comentou "mãe, tô com a barriga doendo, acho que tem cocô aqui". Falei: "Filhote, em casa a gente pode falar esses assuntos, pois não ligamos, mas na mesa, enquanto comemos ao lado de pessoas que não conhecemos, é melhor evitar, pois elas podem se incomodar"), algumas maneiras de lidar com pessoas estranhas que não coloque meus filhos constantemente em situações constrangedoras. Eu não gostaria que as pessoas ficassem repreendendo meus filhos porque disseram cocô à mesa, por exemplo. Então eu posso dizer que há pessoas que se incomodam e, se mesmo assim eles quiserem continuar falando do assunto, podem receber olhares ou frases reprovadores. Pelo menos eu avisei que isso poderia acontecer.
Mesmo com os pais as crianças não precisam ficar obedecendo. A relação pode ser muito mais linear e igualitária. Posso pedir a opinião deles, posso explicar situações mais complexas para que eles entendam contextos pelos quais ainda não passaram, enfim. Há inúmeras formas de falarmos uns com os outros que não pressupõe a relação de hierarquia da qual a Lia comentou.
Por isso, atualmente eu acho que essa relação de hierarquia -- até mesmo no trabalho -- não é sadia. Só porque a pessoa ocupa um cargo acima do meu (são raras as empresas em que não há essa relação hierárquica, mas isso não é impossível) significa que ela saiba mais que eu ou que eu não possa dar a minha opinião e trabalhar em equipe. :)
Dia a dia vou tentando organizar minha família como uma equipe. Com respeito mútuo.

3 comentários:

  1. O seu comentário sobre cocô me lembrou uma coisa que uma vez o Chri disse sobre pôr o dedo no nariz. Estávamos falando sobre ensinar coisas nas quais não acreditamos, e ele disse que ele não acha feio fazer isso, então, se tivesse que ensinar a Nicole a parar de colocar o dedo no nariz, ele diria que algumas pessoas se incomodam e a irão repreender por isso, então seria escolha dela fazer ou não.

    Sobre a hierarquia no trabalho, concordo com vc que quem está acima de nós nem sempre sabe mais. Cada um tem suas qualidades e defeito. A questão de ter que fazer o que o chefe pede é justamente o poder que ele tem de te mandar embora se vc começar a implicar ele.

    Já a relação de família também acho que tem que ser um trabalho em equipe, não uma hierarquia. Acho horrível quem fala coisas como "o filho é meu, eu faço com ele o que eu quiser e ele tem que me obedecer". Sem comentários, né?

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  2. Eu já tinha até fechado o notebook, mas lembrei de um exemplo sobre a questão da autoridade no trabalho que eu TIVE que voltar aqui para contar. hahaha

    Trabalhei em uma multinacional numa equipe com mais três secretárias. Uma delas, que era a mais sênior e ganhava muito bem, secretariava uma chefona terrível. Entre as exigências, sempre que ela pedia Caesar salad do Fifties (muito frequentemente, já que ela nunca tinha tempo de sair para almoçar), a secretária tinha que distribuir os croutons uniformemente de um jeito que só ela sabia. Se a salada estivesse desorganizada, a chefe ficava louca, perguntando se era muito difícil fazer o que era pedido. As outras duas secretárias também sabiam arrumar a salada da mulher, mas eu nunca aprendi porque não fiquei tempo suficiente para me confiarem o bastante para entregar a salada (!!!). Isso porque eu não aguentei o clima da empresa e pedi demissão ainda no período de experiência. Mas, é claro, eu tinha essa opção. Quem não tinha porque precisava do dinheiro ou porque gostava do status, ficou.

    É claro que a chefe não poderia demitir ninguém com a justificativa de que a salada dela não estava do jeito que ela queria. Mas as funcionárias não queriam testar se ela iria atrás de outros motivos para queimar o filme das meninas.

    Ah, e só uma observação: apesar de ela passar diversas vezes em frente à minha mesa todos os dias, ela só se dirigiu a mim duas vezes em 3 meses, e só para me perguntar onde estava a secretária dela. Gente humilde, sabe? :)

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    1. Mas vê que coisa, Lia? O ambiente não era bom. ;)

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